Em novembro de 1818, numa estufa em Barnet, nos arredores de Londres, abriu uma flor que ninguém na Europa tinha visto antes.
Grande, de lábio arroxeado, ela saiu de um material vegetal que tinha vindo do Brasil e ninguém achava importante.
Era a Cattleya labiata.
Essa é uma história muito interessantem na época, o naturalista inglês William Swainson viajou ao norte do Brasil, na região de Pernambuco, em 1816.
Seu objetivo era encontrar:
- Samambaias
- Musgos
- Líquens
- Plantas tropicais em geral
O tipo de material que enchia os herbários europeus da época.
Em 1818, um desses lotes saiu do Brasil e chegou para William Cattley (1788-1835).
Cattley era comerciante de grãos, negociava com a Rússia e tinha uma paixão por orquídeas que beirava a obsessão.
Em vez de jogar fora aquelas plantas estranhas, resolveu cultivá-las.
Deu certo!

Em novembro daquele ano veio a floração.
No ano seguinte, outro exemplar floresceu no Jardim Botânico de Glasgow, segundo o registro do New York Botanical Garden.
Em 1821, o botânico John Lindley, contratado pelo próprio Cattley para catalogar e ilustrar a coleção, descreveu a planta na obra Collectanea Botanica e batizou-a de Cattleya labiata, em homenagem ao patrão.
É por isso que essa é uma orquídea brasileira que carrega o sobrenome de um negociante inglês.

A lenda do embrulho
Agora vamos começar a falar sobre algumas lendas envolvendo essa orquídea.
A versão mais repetida diz que as folhas da Cattleya serviram de embalagem, era um enchimento para proteger os musgos e líquens durante a viagem de navio.
Nessa história, a flor mais admirada do mundo das orquídeas teria chegado à Europa por puro engano.
O site Chadwick Orchids aponta que essa história do embrulho foi popularizada em 1893, num artigo de Frederick Boyle chamado “The Lost Orchid”, décadas depois dos fatos.
A página da Wikipédia sobre caça de orquídeas também observa que há indícios de que Swainson já sabia do valor da orquídea que estava mandando.
Por isso, fica difícil dizer onde termina o registro e começa o causo.
Então o acidente completo, aquele de “ninguém fazia ideia”, provavelmente é lenda.
O que sabemos com certeza é que a planta chegou desconhecida,
Cattley cultivou, ela floresceu em 1818 e ficou famosa.

Mas, após isso, a Cattleya labiata acabou “perdida” para os cultivadores europeus por décadas, porque Swainson anotou errado o local de coleta.
Em suas anotações, indicou o Rio de Janeiro em vez do Nordeste.
Expedições inteiras saíram atrás dela no lugar errado.
Só em 1889 que conseguiram reencontrá-la na natureza (lembrando que isso vale para a Cattleya labiata, não para o gênero Cattleya, que reúne mais de 100 espécies).
O que quem cultiva conta hoje

Duzentos anos depois, a história continua acontecendo em varandas e apartamentos, em escala menor.
Uma cultivadora relata que comprou uma Cattleya sem reparar que já havia uma haste floral se formando. Em pouco tempo, sua orquídea floriu.
Também encontrei um relato onde a Cattleya foi escurecendo para um tom mais rosado até o quarto dia de floração, depois, o perfume chegou com tudo.

As flores da Cattleya labiata medem de 12 a 18 cm, saem de duas a cinco por haste e podem durar até seis semanas.
O aroma da Cattleya é muito mais forte que o das outras orquídeas, sendo um perfume doce e mais forte durante o período da manhã.
Alguns comparam seu cheiro com um chá de camomila concentrado.
Aprenda mais sobre as Cattleyas
Aqui no blog nós temos vários textos abordando sobre as principais espécies de Cattleyas que você pode encontrar a venda aqui no Brasil.
Se você quiser aprender mais sobre elas, acesse os artigos abaixo.
- Cattleya Bicolor – Aprenda a Cuidar Delas (Passo a Passo)
- Cattleya Purpurata (Laelia Purpurata): Como Cuidar e Florir
- Cattleya Nobilior (Orquídea Rainha do Cerrado)
- Cattleya Schilleriana – Fotos, Características e Cultivo
- Cattleya Walkeriana – Como Cuidar em 7 Passos Simples
- Cattleya Intermedia – Tipos, Variedades e Cultivo
Na minha opinião, depois de ler as duas versões da história: a lenda do embrulho é charmosa, mas a verdade é mais interessante.
Um comerciante de grãos apostou em umas folhas esquisitas vindas do Brasil, botou na estufa, esperou e ganhou uma flor que mudou a jardinagem do século XIX.
Gostou do texto? Deixe um comentário abaixo e me diga, qual sua orquídea favorita?
